A cobra coral tem um dos venenos mais potentes do mundo animal.
Com sua cor vibrante e padrões de anéis coloridos, elas tem “sósias” inofensivas, as falsas-corais.
Por isso, muita confusão ronda as corais: como distinguir a verdadeira da falsa coral? Todas são mortais? Por que têm essas cores tão marcantes? O que fazer se encontrar uma?
O Brasil abriga 41 espécies de corais verdadeiras (gêneros Micrurus e Leptomicrurus) e mais de 60 espécies de falsas-corais, principalmente da família Dipsadidae.
Vamos conhecer mais? 🐍
A Coral verdadeira: Pequena, tímida e letal
Pequenas serpentes (40 cm a 1,6 m de comprimento), corpo cilíndrico, cabeça ovalada pouco destacada do corpo, olhos pequenos e pretos, escamas lisas e cauda curta e roliça .
Apresenta anéis completos (circunferenciais) nas cores preto, vermelho e branco/amarelo, dispostos em sequências tríades.

Micrurus browni
Imagem: Ruth Percino Daniel
Mas se basear apenas pela cor NÃO É CONFIÁVEL para identificação, uma vez que na América do Sul há uma imensa variação de padrões de cores.
São serpentes que passam a maior parte do tempo escondidas sob folhas, troncos podres, pedras, tocas de outros animais ou mesmo enterradas em solo fofo.
O corpo cilíndrico e liso facilita o deslocamento em túneis, e a cabeça pequena e arredondada ajuda a escavar.
São predominantemente noturnas e crepusculares, evitando o calor do dia.
Saem dos esconderijos para caçar ou em noites quentes e úmidas após chuva.
São ofiófagas, ou seja, alimentam-se principalmente de outras serpentes (incluindo cobras-cegas, pequenas jararacas e até outras corais), lagartos ápodes (cobras-de-vidro) e anfisbenas (cobra-cega verdadeira).
Algumas espécies também comem anfíbios e pequenos lagartos.
Apesar do seu potente veneno não são agressivas e acidentes com humanos são relativamente raros, apesar de sua ampla distribuição.
A coral verdadeira possui dentição proteróglifa.
Ou seja, presas curtas, fixas e ocas na frente da maxila superior, eficientemente conectadas a glândulas de veneno.
Possui um dos venenos mais potentes entre as serpentes brasileiras, predominantemente neurotóxico, um coquetel complexo de proteínas e enzimas.
O propósito biológico do veneno da coral é imobilizar presas como lagartos, cobras menores, anfíbios, além da defesa contra predadores maiores.
Por isso, o veneno age no sistema nervoso periférico, paralisando a vítima rapidamente (presa ou predador).
Assim, o componente principal do veneno atua nas junções neuromusculares (onde nervos se conectam aos músculos).
Ele bloqueia irreversivelmente os receptores para o neurotransmissor acetilcolina.
Imagine a acetilcolina como uma “chave” que abre a “fechadura” (receptor) no músculo para que ele se contraia.
O veneno tampa a fechadura.
A chave (acetilcolina) não entra mais.
Assim, a comunicação entre nervo e músculo é interrompida.
Os efeitos no corpo humano começam com dormência local, visão turva, ptose palpebral (queda das pálpebras), dificuldade de deglutição e fala, vômitos.
Evolui para paralisia muscular generalizada, incluindo músculos respiratórios (diafragma), podendo levar à morte por asfixia em 2 a 10 horas se não tratado .
O tratamento requer administração intravenosa do soro antielapídico o mais rápido possível .
As Falsas-Corais: Mestras do disfarce
A falsa coral pertence principalmente à família Dipsadidae.
São predominantemente não peçonhentas, mas existem exceções com veneno de baixa periculosidade para humanos.
Sua estratégia de sobrevivência é imitar fielmente a aparência da coral verdadeira, aproveitando-se do respeito que os predadores têm pela espécie modelo.
Esse mimetismo pode ser morfológico (cores, padrão) e até comportamental, como por exemplo enrolar a ponta da cauda para esconder a cabeça, comportamento também observado em corais verdadeiras.

Erythrolamprus aesculapii. Falsa coral, também conhecida como boicora.
Imagem: Wallembergsousa
Podem apresentar padrões muito semelhantes, mas frequentemente os anéis não são completos (o ventre pode ser uniforme, creme ou manchado, não seguindo o padrão do dorso) ou a sequência e largura das faixas coloridas diferem.
Ocupam florestas tropicais, cerrados, caatingas, áreas agrícolas e até regiões urbanas, preferindo solo com cobertura de folhiço, troncos, pedras ou buracos.
Predominantemente diurnas ou crepusculares, embora algumas espécies, como a Oxyrhopus trigeminus, sejam noturnas.
Se alimentam de lagartos, anfíbios, pequenos mamíferos, aves e outras serpentes, dependendo do bioma onde se encontram
Como não possuem veneno eficaz, subjugam presas por constrição ou engolem-nas viva.
A dentição da falsa coral é áglifa (sem presas inoculadoras de veneno desenvolvidas) ou opistóglifa (presas inoculadoras localizadas no fundo da boca, sendo muito difícil inocular veneno em humanos e geralmente de baixa toxicidade).
Por que é tão difícil diferenciar?
Distinguir serpentes corais verdadeiras das falsas não é uma tarefa fácil!
Como já alertamos anteriormente, o padrão de cor não é um critério confiável já que os padrões variam geograficamente e existem falsas corais com sequências idênticas às verdadeiras.

As corais verdadeiras tem a cabeça pequena, arredondada e pouco distinta do pescoço.
Olhos pequenos, com pupilas redondas (em luz normal).
Escamas da cabeça grandes e simétricas.
Possuem fossetas loreais (minúsculos orifícios sensoriais de calor entre olho e narina) em algumas espécies (não todas!).
Além disso, possuem o corpo cilíndrico e delgado, terminando em uma cauda curta e afilada.
O padrão de anéis circunda completamente o corpo de forma uniforme.
E possuem escama anal (última escama antes da cloaca) dividida (parece duas escamas).
Enquanto que as corais falsas possuem a cabeça mais alongada ou triangular, mais distinta do pescoço.
Olhos geralmente maiores, com pupilas elípticas/verticais (como jiboias).
Escamas da cabeça menores e menos regulares, e não possuem fossetas loreais.
O corpo pode ser mais robusto, com a cauda geralmente mais longa.
Os anéis podem ser incompletos (não fecham totalmente no ventre) ou menos regulares.
E possuem escama anal única e inteira.
A identificação segura requer análise de múltiplas características anatômicas, o que na hora do susto é difícil de observar.
Na dúvida, trate toda coral como potencialmente perigosa e mantenha distância!!
Importância ecológica
Tanto corais verdadeiras quanto falsas são predadoras importantes, controlando populações de suas presas (outras serpentes, lagartos, anfíbios, peixes – dependendo da espécie).
São, por sua vez, predadas principalmente por aves de rapina e gambás (estes últimos com resistência ao veneno).
O desconhecimento leva à matança indiscriminada de ambas, prejudicando o equilíbrio ecológico.
A destruição de habitats também é uma grande ameaça.
A preservação desses animais, tanto os verdadeiramente perigosos quanto seus talentosos imitadores, é crucial para a manutenção da biodiversidade.
O fazer ao encontrar uma coral
Afaste-se lentamente pelo menos 2-3 metros, mantendo um distância segura.
Não tente matar, capturar ou perturbar.
Se quiser fotografar, use zoom e mantenha distância!!
Se estiver no caminho, espere que ela se retire sozinha ou contorne com ampla margem.
Em caso de acidente, mantenha a calma e imobilize o membro atingido.
Use tala ou tipoia para minimizar movimentos, mas nunca faça torniquete.
Retire anéis, pulseiras, calçados apertados antes que o eventual edema comece.
E procure imediatamente atendimento médico!!!
Identifique a serpente SÓ se for seguro: Uma foto de longe ajuda, mas não arrisque uma segunda picada tentando capturá-la.
Se ela já tiver fugido, descreva o máximo de detalhes possível (cores, tamanho, comportamento, local do acidente).
O que NÃO fazer
NÃO chupe o veneno: É ineficaz e pode contaminar a ferida.
NÃO faça cortes no local: Aumenta o risco de infecção e danos.
NÃO aplique substâncias (álcool, folhas, pó de café): São inúteis e podem prejudicar.
NÃO dê bebidas alcoólicas ou estimulantes: Pioram a circulação.
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