Você já ouviu falar nos protozoários? Sabe o que são?
Os protozoários são organismos eucarióticos (possuem um núcleo celular definido e organelas membranosas) que pertencem ao Reino Protista.
O nome tem origem grega: protos (primeiro) e zoon (animal), significando “primeiro animal”.
Esta denominação reflete a visão inicial destes organismos como formas de vida animal primitivas, embora hoje saibamos que essa classificação é simplificada.
Eles são, em sua grande maioria, unicelulares e heterotróficos, ou seja, não produzem seu próprio alimento e precisam obtê-lo do ambiente.
Vivem em ambientes aquáticos (água doce e salgada), solos úmidos e como parasitas em outros organismos.
Desempenham um papel crucial nas cadeias alimentares, atuando como decompositores e como elo entre produtores (como as algas) e consumidores maiores.
Apesar de serem formados por uma única célula, os protozoários são incrivelmente complexos.
Sua célula única é capaz de realizar todas as funções vitais: alimentação, locomoção, reprodução e resposta a estímulos.
A forma de locomoção é uma das características mais usadas para classificá-los.
Eles podem se mover usando: pseudópodes, que são extensões temporárias do citoplasma, como “pés falsos” (Sarcodíneos ou Rizópodes como a ameba); flagelos, que são longos filamentos em forma de chicote (Flagelados ou Mastigóforos, como o Trypanosoma cruzi, causador da Doença de Chagas) ou por meio de cílios, que são numerosos e curtos filamentos que batem ritmicamente (por exemplo Paramecium caudatum).
Alguns são imóveis em certas fases da vida e são chamados de esporozoários ou apicomplexos, como por exemplo o Plasmodium spp. (causador da malária).

A maioria é heterotrófica por fagocitose (englobando partículas sólidas) ou pinocitose (englobando líquidos).
Alguns, como os Euglenozoários, podem ser mixotróficos, realizando fotossíntese em algumas condições.
Podem se reproduzir assexuadamente por bipartição (divisão simples da célula em duas) ou sexuadamente por conjugação (troca de material genético entre indivíduos).

São fundamentais no controle de populações bacterianas e na reciclagem de nutrientes.
E por isso, são também importantes indicadores ambientais, assim, a presença ou ausência de certas espécies em um corpo d’água pode indicar seu nível de poluição.
Além disso, muitos protozoários vivem em simbiose no intestino de cupins e ruminantes, ajudando na digestão da celulose.
Algumas espécies são agentes de doenças graves em humanos e animais, como veremos a seguir.
Principais doenças causadas por protozoários
Giardíase
Causada pelo Giardia lamblia, parasitas flagelados, esta infecção intestinal é uma das principais causas de diarreia no mundo, afetando principalmente crianças em áreas com saneamento básico deficiente.
A transmissão ocorre via ingestão de cistos (formas de resistência do parasita) presentes em água ou alimentos contaminados, ou ainda pelo contato direto entre pessoas.
No intestino, os cistos liberam formas ativas (trofozoítos) que se fixam à parede intestinal, provocando má absorção de nutrientes.
Os sintomas incluem diarreia aquosa e fétida, cólicas abdominais, inchaço e náuseas.
Embora muitas vezes o corpo consiga combater a infecção sozinho, casos persistentes requerem tratamento com medicamentos específicos.
A prevenção está no consumo de água tratada, higiene pessoal e alimentação cuidadosa.
Amebíase
O gênero Entamoeba tem várias espécies, no entanto, as mais importantes no contexto da saúde humana são: Entamoeba Histolytica e Entamoeba coli.
São organismos unicelulares que se deslocam por meio de pseudópodes.
Assim como a Giardia, seu ciclo envolve cistos eliminados nas fezes, que contaminam o ambiente.
A ingestão desses cistos leva à infecção.
A maioria das infecções é assintomática, mas o parasita pode viver como “comensal” no intestino.
O perigo surge quando ele invade a parede intestinal, causando a disenteria amebiana: diarreia intensa com muco e sangue, dor abdominal e febre.
Em casos mais graves, o protozoário pode viajar pela corrente sanguínea e formar abscessos em órgãos como o fígado (amebíase extra-intestinal).
O combate à doença passa por saneamento básico e tratamento de água, quebrando o ciclo de contaminação fecal-oral.
Tricomoníase
Trichomonas vaginalis é o agente etiológico da tricomoníase.
São protozoários polimorfos, elipsoides, ovais ou esféricos.
Não possuem forma cística, só a forma trofozoítica.
Diferente das anteriores, esta é uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST).
Afeta o trato urogenital de homens e mulheres, mas é nas mulheres que os sintomas são mais evidentes: corrimento amarelo-esverdeado de odor forte, coceira, dor ao urinar e durante as relações sexuais.
Muitos homens são assintomáticos, mas podem transmitir o parasita.
Por não formar cistos, sua transmissão depende quase exclusivamente do contato sexual.
O uso de preservativos é a forma mais eficaz de prevenção.
O tratamento é simples com antibióticos específicos, mas é crucial que todos os parceiros sexuais sejam tratados simultaneamente para evitar a reinfecção.
Toxoplasmose
Causada pelo Toxoplasma gondii, esta é uma das infecções parasitárias mais comuns no mundo.
A maioria das pessoas infectadas não apresenta sintomas ou tem sinais leves, semelhantes aos de uma gripe.
O grande risco está para gestantes e pessoas com imunidade baixa.
O ciclo do parasita envolve os gatos como hospedeiros definitivos, eliminando ovos (oocistos) nas fezes.
A infecção humana acontece ao ingerir água ou alimentos (como vegetais mal lavados) contaminados com fezes de gato.
Ou ao consumir carne mal passada de animais infectados (principalmente porco e carneiro).
E durante a gravidez, da mãe para o feto (transmissão congênita), o que pode causar sérias lesões no bebê.
Gestantes devem evitar contato com caixas de areia de gatos, consumir apenas carne bem cozida e lavar muito bem frutas e verduras.
Leishmaniose
Um grupo de doenças causadas por diferentes espécies do gênero Leishmania.
A transmissão não é direta: ocorre pela picada de mosquitos-palha (flebotomíneos) infectados.
Existem duas formas principais: a leishmaniose tegumentar (Cutânea) que causa feridas na pele e mucosas (como boca e nariz) que podem ser de difícil cicatrização e levar a desfigurações.
E a leishmaniose visceral (Calazar): A forma mais grave, já que ataca órgãos internos como fígado, baço e medula óssea, causando febre prolongada, perda de peso, aumento do baço e fígado, e pode ser fatal se não tratada.
O controle é complexo, envolvendo combate ao mosquito, diagnóstico precoce e tratamento.
Em áreas de risco, o uso de repelentes e telas protetoras é fundamental.
Doença de Chagas
Causada pelo Trypanosoma cruzi.
O inseto vetor é o barbeiro, que vive em frestas de casas de pau-a-pique.
Ele pica uma pessoa para se alimentar e defeca próximo à picada.
O protozoário, presente nas fezes do inseto, penetra pelo local da picada ou por mucosas (como ao coçar ou esfregar os olhos).
A doença tem duas fases: uma aguda, o qual muitas vezes é assintomática, mas também pode causar febre e inchaço no local da picada; e uma fase crônica, após anos silenciosa, pode se manifestar com graves problemas cardíacos e/ou dilatação do esôfago e cólon, dificultando a digestão.
A prevenção se baseia no controle do barbeiro com inseticidas, melhorias nas habitações e triagem em bancos de sangue para evitar transmissão por transfusão.
Malária
Talvez a mais conhecida doença protozoária, a malária é uma emergência médica global.
Transmitida pela picada de fêmeas de mosquitos do gênero Anopheles (popularmente, mosquito-prego) infectados pelo protozoário Plasmodium.
Após a picada, o parasita invade as células do fígado e depois os glóbulos vermelhos, destruindo-os.
Isso causa os sintomas clássicos: ciclos de calafrio intenso, febre alta e sudorese, que se repetem a cada 48 ou 72 horas, dependendo da espécie.
Você sabia que a malária mata, anualmente, duas vezes mais que a AIDS e muito mais que qualquer outra doença infecciosa?
Também é conhecida como maleita, impaludismo, paludismo e febre terçã ou quartã.
Cada região do mundo tem sua fauna específica de Anopheles e a epidemiologia da malária depende da composição dessa fauna.
Existem mais de 350 espécies de Anopheles em todo o mundo, mas apenas cerca de 30 a 50 são capazes de transmitir os plasmódios humanos.
No Brasil, a principal espécie transmissora sempre foi o Anopheles darlingi, que hoje, ausente das áreas urbanizadas brasileiras, está restrito à Amazônia.

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