O termo imunidade de rebanho tem sido muito falado nos últimos meses de pandemia.

Mas você sabe o que de fato isso significa?

Ou como funciona?

A imunidade coletiva, também conhecido como imunidade de rebanho ou de grupo abrange duas ideias.

A primeira é de que a probabilidade de contágio em uma população diminui quando aumenta a proporção entre imunes e suscetíveis.

Ou seja, quantos mais pessoas com anticorpos menos a doença se desenvolve.

E a segunda, descoberta por meio da construção de modelos matemáticos.

Considera que mesmo ainda havendo suscetíveis, há um percentual de imunes – que varia conforme a capacidade do vírus de infectar a população e a dinâmica das interações da própria população – que já é suficiente para determinar uma taxa de contágio desprezível.

Ou seja, para determinar a erradicação do patógeno.

imunidade de rebanho

Assim, podemos dizer que se entende por imunidade coletiva ou de rebanho a “proteção indireta” (RANDOLPH & BARREIRO, 2020) que recebem indivíduos suscetíveis ao vírus quando grande parte da população já se encontra imunizada contra o agente patógeno.

Mas como se alcança a imunidade coletiva?

Normalmente este tipo de efeito é levado em consideração no contexto de programas de vacinação.

Os quais almejam estabelecer a imunidade de modo que aqueles que não puderam ser vacinados, incluindo crianças e pessoas com doenças autoimune, ainda estejam protegidos contra a doença (RANDOLPH & BARREIRO, 2020).

Assim, dependendo da proporção de imunizados o efeito da imunidade de rebanho é ou não alcançado.

Enquanto o número de imunizados for muito menor do que o da população suscetível ao vírus, ele continuará circulando livremente e as pessoas continuarão se contaminando.

Assim, para medir o limiar em que a imunidade de rebanho será alcançada é necessário verificar a média de infecções secundárias causadas por um único indivíduo introduzido em uma população suscetível (RANDOLPH & BARREIRO, 2020).

Ou seja, a média de quantas pessoas podem ser infectadas ao ter contato com uma pessoa contaminada.

Dependendo desta média é possível calcular a proporção de quantas pessoas dentro de uma população precisam ser imunizadas para que se alcance a “imunidade de rebanho”.

É possível ter imunidade de rebanho para a Covid-19?

Considerando a média de pessoas contaminadas a partir de um único indivíduo contaminado, alguns cientistas levantam a hipótese de que 67% (RANDOLPH & BARREIRO, 2020) da população teria que estar contaminada com o SARS-CoV-2 para que se alcance o efeito da “imunidade de rebanho”.

E muito já se falou nas correntes de whatsapp por aí que quanto mais cedo as pessoas tivessem contato com o coronavírus, mas rápido iria acabar.

Mas não é bem assim!

Construir a imunidade de rebanho do SARS-CoV-2 através da infecção natural é teoricamente possível.

Mas na prática, é um caminho de consequências devastadoras.

Já pensou quantas vidas precisariam ser perdidas para atingir a imunidade coletiva?

Na hipótese de atingirmos a imunidade de rebanho por infecção natural, isto é, sem vacina, estaríamos falando de mais de 30 milhões de pessoas (RANDOLPH & BARREIRO, 2020) mortas no mundo.

Das quais, 1,5 milhão de vidas perdidas apenas no Brasil (AFFONSO, A., 2020).

Isso sem considerar as diferenças em acesso a recursos de cuidado em saúde e variações na prevalência de outras doenças já existentes.

Se considerarmos esses dois fatores a conta é ainda mais alta.

Além disso a imunidade de rebanho por infecção natural teria como consequência a sobrecarga do sistema de saúde.

Seja ele público (SUS) ou privado (planos de saúde).

O que aumentaria de novo ainda mais o número de mortos por efeitos diretos ou indiretos do vírus.

E atingiria especialmente a população mais vulnerável e sem acesso a recursos.

Estamos perto de uma imunidade de rebanho?

É preciso um pouco de cuidado com essa ideia de que a imunidade de coletiva pode acontecer naturalmente e facilmente.

Já que quando a imunidade de rebanho é retirada da sua precisão científica e utilizada para a naturalização de uma necropolítica (MBEMBE, A., 2016), permite a manutenção de um desejado “feixe de promessas” (BERLANT, 2011).

Ou seja coloca como possível aquilo que é simplesmente impossível, por causa da pandemia.

Conservando os objetos de desejo de parte da população para a qual é possível viver como antes – esta é a força de seu “otimismo” (FRANCO, T. M., 2020).

Um “otimismo” que independe de seu conteúdo “cruel” (que, por exemplo, muitos apoiadores da imunidade de rebanho e/ou seus parentes morrerão ao se expor ao vírus), mas que pela forma de sua ligação dá continuidade às expectativas das pessoas (FRANCO, T. M., 2020).

Assim, discursos e práticas como estes fomentam impasses concretos para trabalhadores precarizados e microempresários que precisam garantir seus rendimentos e nem sempre podem trabalhar em casa ou mesmo ficar sem fonte de renda (FRANCO, T. M., 2020).

Neste contexto distorcido, a imunidade de rebanho fornece um ideal sacrificante para essas pessoas jogando seus adeptos mais além da morte em uma “lógica do martírio” (MBEMBE, A., 2016).

Mas a única coisa que tivemos aqui no Brasil até agora foi uma estabilização das tendências de números de novos casos e mortes.

Estabilização essa, muit