Morcegos são animais que em geral despertam reações negativas nas pessoas.

É muito comum reações como “Credo!” ou “Que nojo!”.

Muitas pessoas têm medo de morcegos por acreditar, erradamente, que todos esses animais – únicos mamíferos voadores – se alimentam de sangue.

Mas na verdade, das cerca de 1.100 espécies de morcegos conhecidas em todo o planeta, apenas três dependem desse tipo de alimento.

São eles o morcego-vampiro comum (Desmodus rotundus), o morcego-vampiro-de-asas-brancas (Diaemus youngi) e o morcego-vampiro-de-pernas-peludas (Diphylla ecaudata).

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Mas se só existem três espécies que se alimentam de sangue, morcegos se alimentam de quê?

De frutas, de insetos, de néctar, e alguns de pequenos vertebrados.

Isso significa que, morcegos não são todos iguais.

E diferem não só nos hábitos alimentares, mas também no tamanho, na aparência, na dentição e no seu papel ecológico.

Morcego “vampiro”

As três espécies que se alimentam de sangue estão restritas à América Latina.

As duas primeiras ocorrem desde o sul do México até o norte da Argentina, em regiões mais quentes.

D. ecaudata é encontrada do sul do Texas, nos Estados Unidos, ao sudeste do Brasil.

Os morcegos vampiros ganharam esse nome por causa de lendas, anteriores à chegada dos europeus às Américas.

E não o contrário.

Assim quando descobriram que tais morcegos consumiam sangue, os exploradores do Novo Mundo, usaram sua herança cultural para batizá-los de ‘vampiros’.

E mais tarde, ao descrever outros morcegos do continente, naturalistas batizaram alguns gêneros, erradamente, com nomes referentes a vampiros.

Acreditando que também consumiam sangue.

Ainda hoje, são válidos gêneros como Vampyrum, Vampyressa, Vampyrodes e Vampy rops.

Incluindo pouco mais de 10 espécies de morcegos das Américas que comem basicamente frutas.

Exceto Vampyrum spectrum, um carnívoro.

O que os morcegos hematófagos têm em comum com os vampiros?

Apenas o nome!

Os morcegos que se alimentam de sangue em nada se parecem com os vampiros de filmes.
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O morcego-vampiro-comum, o mais comum de se encontrar, tem cerca de 35 cm de envergadura.

Contanto a distância entre as pontas das asas abertas.

Pesa entre 25 e 40 gramas e pode ser considerado de médio porte, comparado às cerca de 150 outras espécies desses animais no Brasil.

A pelagem desse morcego é bastante macia, em geral de coloração cinza brilhante.

Mas pode apresentar também tons avermelhados, dourados ou mesmo alaranjados.

Os morcegos vampiros só se alimentam de sangue e não conseguem sobreviver mais de três dias sem ele.
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Sua dentição é bem diferente da de um frugívoro.

Seus dentes incisivos são maiores, em formato de estilete, mais afiados e projetados para a frente.

Isso permite que o animal retire pequenos pedaços de pele e tecido das presas, para obter seu alimento.

Ou seja, sangue, obtido a partir de um pequeno corte na pele da presa, feito com os dentes incisivos superiores.

O corte tem de 3 a 5 mm de diâmetro e de 1 a 5 mm de profundidade, sendo, portanto, incapaz de romper vasos (veias ou artérias) de maior porte.

Então morcegos não mordem pescoços e deixam marquinhas?

A resposta também é não.

Os morcegos hematófagos enfrentam dois problemas ao se alimentar: obter a quantidade suficiente de sangue a partir de uma pequena ferida e fazer isso antes que o sangue coagule.

No primeiro caso, ele pode adotar duas estratégias: ou atacar uma presa grande e, portanto, com mais sangue.

Ou procurar mais de uma presa pequena por noite.

Do ponto de vista da relação custo/benefício, a primeira opção é mais viável.

Já para evitar o problema da coagulação, os morcegos vampiros dispõem de um interessante recurso.

Sua saliva contém três proteínas que retardam o processo.

A primeira impede a formação do coágulo, a segunda evita que as células sanguíneas se agrupem e a terceira atrasa a constrição dos vasos do local mordido.

Assim, o morcego lambe constantemente a ferida, para ingerir o sangue que escorre, e o contato de sua saliva mantém o sangue fluindo.

Isso mesmo, morcegos não chupam o sangue, apenas lambem a ferida.

A ‘refeição’ dura entre 20 e 30 minutos.

Demais Morcegos

Morcegos são animais noturnos e diferentes do que muitos pensam, não são cegos.

Embora tenham poucos cones na retina, uma estrutura relacionada com a percepção de cores.

Além disso, embora todas as famílias brasileiras usem a ecolocalização para se orientar, alguns frugívoros maiores também se localizam pela visão.

Por utilizar primariamente o sistema de ecolocalização, os olhos são pequenos, as orelhas são grandes, o trágus (cartilagem da orelha) bem desenvolvido e as ornamentações nasais e faciais muitas vezes estão presentes.

Muitas espécies são frugívoros em diferentes graus.

E as mais especializadas pertencem às subfamílias Carolliinae e Stenodermatinae.
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Já os morcegos de outras subfamílias têm hábitos alimentares variados.

Muitos são onívoros (Phyllostominae), alguns consomem principalmente néctar (Brachyphyllinae, Glossophaginae e Phyllonycterinae).

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No mundo, em torno de 26% das espécies de morcegos comem apenas frutos ou estes completam sua dieta.

Já no Brasil, os frugívoros representam cerca de metade das espécies.

Poucas espécies de morcegos são exclusivamente frugívoros.

Ou seja, muitas das espécies que buscam frutos comem também néctar, insetos e até vertebrados.

Frugívoros

Têm preferência por frutos carnosos e suculentos, cuja polpa geralmente é mascada ou sugada e as sementes menores são engolidas, saindo depois com as fezes.

Suas plantas preferidas são principalmente as embaúbas (Cecropiaceae), figueiras (Moraceae), juás (Solanaceae) e pimenteiras (Piperaceae).

Onívoros

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São adaptados para vários hábitos alimentares.

Se alimentam de insetos, pólen, néctar e frutas e, às vezes, pequenos invertebrados.

Piscívoros


São habilidosos na pesca, com grandes e fortes pés em forma de garra.

Vivem perto de cursos da água e pescam através de ecolocalização.

Polinívoros e nectarívoros

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São morcegos da família Phyllostomidae (que possuem dentes diminutos).

Retiram carboidratos do néctar e proteínas do pólen das plantas, mas também podem ingerir insetos.

São típicos pelo seu focinho alongado e língua exageradamente comprida.

Além disso, têm pelos faciais e corporais especializados para transportar o pólen.

Algumas plantas populares como o pequizeiro, o jambeiro, o abacateiro, a goiabeira, a mangueira e a bananeira têm suas flores polinizadas por morcegos.

Insetívoros

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Como por exemplo, Vespertilionidae, obtêm a maioria dos insetos dos quais se alimentam em voo.

Normalmente, os Embalonuridae e os Vespertilionidae capturam esses insetos voando em nível mais baixo do que a copa das árvores, e os Molossidae, voando acima dessas copas.

Existem relatos de morcegos que sobem a aproximadamente três mil metros de altura para alcançar concentrações de mariposas.

Por isso, a dentição varia com o modo de alimentação adotado, tendo cúspides mais agudas nos molares das espécies insetívoros do que nos frugívoros.

Os caninos são grandes e os incisivos são sempre rudimentares com exceção dos hematófagos, onde são desenvolvidos.
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Os dentes permanentes vão de 20 nos hematófagos (Desmodus) até 38 nos insetívoros (Myotis, Thyroptera e Natalus).

Esses dentes são diferenciados de acordo com sua função.

Ou seja, os incisivos cortantes nos hematófagos, os molares achatados para esmagar frutos nos frugívoros e pontiagudos nos insetívoros, para quebrar a quitina dos insetos.

Os filhotes têm dentição de leite em forma de ganchos, com uma ou duas pontas.

E com eles se prendem à teta da mãe, que os carregam durante o voo.

Papel ecológico dos morcegos

Os morcegos são importantíssimos como controladores de insetos.

Estima-se que algumas espécies possam comer quantidades correspondentes a uma vez e meia o seu peso em uma única noite.

Além disso, morcegos podem dispersar sementes de pelo menos 96 gêneros e 49 famílias de plantas na região Neotropical.

Eles podem dispersar centenas de sementes por noite e milhares em um período de frutificação.

Diversos estudos demonstram a importância de morcegos frugívoros na regeneração de ecossistemas florestais.

Justamente por incluírem em sua dieta, frutos de espécies de plantas pioneiras.

Também desempenham papel importante na polinização de pelo menos 500 espécies de plantas neotropicais.

Além de 96 diferentes gêneros, em matas de capoeiras.

Plantas as quais muitas são economicamente importantes para a humanidade como fonte alimentar ou ornamentais.

Os morcegos são extremamente úteis ao homem!

Servem como material de pesquisa na medicina, em estudos epidemiológicos e farmacológicos

Além de mecanismos de resistência a doenças e no desenvolvimento de vacinas.

Servem também como recurso alimentar para alguns povos na África e até para algumas tribos no Brasil.

Além disso, o guano (fezes), depositado pelos morcegos, tem sido utilizado como fertilizante em várias regiões do mundo.

E pode ser comprado em casas de flores e supermercados na Ásia há dezenas de anos.

O guano pode ser o único alimento orgânico para certas espécies cavernícolas.